Terça-feira, 25 de Outubro de 2011

(3 haicais) HAICAIS DE NATAL


HAICAIS DE NATAL
(3 haicais) Poema de Marcello Ricardo Almeida



Uma manjedoura
Dezembro iluminado
Há luz no estábulo


O pinheiro plantado
No Natal dá presentes
O ano inteiro


O grilo na palha
Falou quando Jesus nasceu
O povo crucifica até Deus

Segunda-feira, 24 de Outubro de 2011

POESIA É E SEMPRE SERÁ POESIA (Adivinhe que poesia é esta)


POESIA É E SEMPRE SERÁ POESIA
(Adivinhe que poesia é esta)
Poema de Marcello Ricardo Almeida



Na sala de aula se estudava poesia.
Mas as opiniões, é claro, dividiam-se
de gente querendo ver chover poesia.

Uns escreviam palavras trocadas, charadas,
letras desalinhadas, garatujas, riscos, rimas.

Um vai e volta e não vai a lugar algum.
Inutilmente, diziam-se asneiras, bobagens;
achando que estava se recriando a poesia.

Abria-se o pai-dos-burros. E a palavra?
Não a encontrara, rasgava o papel. Saía.

Esquece: poesia é e sempre será poesia[1].


[1] Poesia é e sempre será poesia. (Adivinhe que poesia é esta). Repta aos juspoetas: na Grécia antiga eles falavam na ágora. E agora? Este poema foi primeiro publicado no Jornal Estudantil do Colégio Guido de Fontgalland, na Feira de Ciências de 1979. Republicado em vários periódicos e, 20 anos depois, in: Uma Teoria do Paradoxo, 1999, p. 65  

Domingo, 23 de Outubro de 2011

Sábado, 22 de Outubro de 2011

NÃO FAZ MAL, TODOS ESTÃO GROGUES


NÃO FAZ MAL, TODOS ESTÃO GROGUES
Poema de Marcello Ricardo Almeida



itoupava, regato. Não interessa.
o pior de tudo é que ninguém ou
quase ninguém bebe nessa porta
de tudo é que ninguém vem acudir

toneladas de tintas serpenteando
cidades numa visão valiosíssima
das telas do Gogh. Não faz mal
.................todos estão grogues[1]



[1] Poema premiado em 1989 em concurso de poesia no Rio/RJ. Republicado in: Uma Teoria do Paradoxo, 1999.

Sexta-feira, 21 de Outubro de 2011

A FLANELA NO SAPATO

A FLANELA NO SAPATO
Poema de Marcello Ricardo Almeida



Uma criança parada observava
seu pai agachado, trabalhando.
Assim, como se fosse um samba:

"Pra lá, pra cá
corre a escova
sobre o sapato

"até ele brilhar.
Pra cá, pra lá
a graxa no sapato,

"a flanela no sapato
pra lá, pra cá. E o
sapato é um espelho".

Fala o pai, um sapateiro,
que o sapato faz as ruas
acordando o mundo inteiro;

sobe morro
vai na chuva
cai no barro
e volta sujo.

Que seriam desses pés
se não fossem os sapatos?
Que seria do fuxico
se não fossem os boatos?[1]


[1] Poema pré-silábico publicado, originalmente, em 1984, em João Pessoa, PB.

Quinta-feira, 20 de Outubro de 2011

SANTANA: LUGAR DE MEMÓRIA. CANTA SANTANA ODE AOS 150


SANTANA: LUGAR DE MEMÓRIA. CANTA SANTANA ODE AOS 150
Poema de Marcello Ricardo Almeida


 ¼ de século aproxima-se
e finda-se agora outro ¼
às pressas meio século vai
solto nas asas do calendário

o poema é a metafísica
é metafísica extraditada 
vou transpor um século
quero ver tudo de novo

se começar tudo eu vou
com o povo deste século
de longe espiarei o hoje
de longe os de amanhã

sublime e elevada cidade do sertão
Santana do Ipanema é ode à alegria
música de Beethoven, texto de Schiller
canta, canta Santana a sua ode aos 150

é comum em Santana os cantares
na Grécia ode, em Roma carmem
estiveram Alceu, Safo e Anacreonte,
Catulo, Horácio – tantos outros falares.

meio século sustenta as pirâmides
há um quarto de século as sustentara
a rua do poeta ainda é a Rua do Sol
onde a luz que é luz jamais se apaga.

Santana do Ipanema lhe contempla
esta é uma ode aos 50 anos cantados
acompanhamento de liras dos 25 anos
depois que meio século o sustentara.

meio século sustenta as pirâmides
ode aos 150: entusiasmo nessa hora
se a caneta olha, o papel se cala
nos genes que desenham a história.

tijolos da pirâmide não se derreteram
o vento soprou a poeira e ainda sopra
caminha-se na velha rua de sombras;
sombras e latidos nunca lhe apavoram.

Quarta-feira, 19 de Outubro de 2011

ENCLAUSURANDO AUTOS EM PURO PÂNICO


ENCLAUSURANDO AUTOS EM PURO PÂNICO
Poema de Marcello Ricardo Almeida



aos poucos - olhe - para o tráfego
para, uma multidão ante o semáforo,
aguardar um caleidoscópico trânsito
por entre os automóveis, o vômito

de mendigos famintos ali atônitos:
me dê uma moedin! dê! anônimos
enclausurando autos em puro pânico
rostos pintados de palhaços trêmulos

oferecem pirulitos às mãos sôfregas
não queremos pirulitos! os hipócritas
arrancam seus carros sem critérios

ficam na poeira, como em cemitérios
mendigos palhaços anafiláticos eram
restou-se-lhes a viola no saco flácido